Informações online podem ser usadas contra você. O que faria se seu concorrente tivesse acesso a dados pessoais e a arquivos confidenciais?
por Tagil Oliveira Ramos | especial para IT Web
17/11/2009
"Ao se preparar para curtir o feriadão de 12 de outubro, a jornalista Rosana Hermann não tinha a mínima ideia da tragédia que lhe aconteceria. Junto com a família viajou sem preocupações para balneário de Águas de São Pedro, a 180 quilômetros de São Paulo. No sábado, dois dias antes da data comemorativa da padroeira do Brasil, ela curtia a casa e os cachorros. Foi quando aconteceu algo que tirou a paz de seu fim de semana.
Twitteira incansável, Rosana é daquelas que fotografa o prato do almoço e publica para todo mundo ver. Naquele dia, não foi diferente. Filmou a cadela Lilly nos braços e tentou enviar para o arquivo para o Twitcam, um serviço que mostra vídeos ao vivo na internet. Não funcionou. De repente, ela foi desconectada do Twitter. Em seguida, descobriu que seu nome de usuário (username) havia sido mudado para Brunomalhaes.
Rosana sentiu um aperto no coração. Alguém havia roubado sua senha e controlava seu perfil. "Fiquei muito preocupada", confessa. "Primeiro porque tive medo que o hacker postasse coisas horríveis em meu nome." O que estava em jogo era a própria credibilidade da profissional, caso o intruso começasse a teclar por ela.
Além disso, se não fossem recuperados os registros, Rosana perderia, num só dia, sua audiência no Twitter, cerca de 40 mil pessoas que acompanham suas mensagens. Além disso, os quatro mil perfis que ela segue e mais de vinte mil mensagens postadas, registradas ao longo de mais de 2,5 anos de atividade "tuiteira".
O que Rosana passou qualquer pessoa pode um dia viver. Num mundo em que se envia uma quantidade enorme de informações pessoais em arquivos digitais, algumas informações que precisam ficar sigilosas podem cair em mãos perversas. A privacidade online passa então a ser um bem de valor fugaz e inestimável. O ruim disso é que, geralmente, só damos valor a ela, quando a perdemos. E a pior notícia: parte da culpa é do próprio usuário, por causa de hábitos descuidados e por não adotar recursos de segurança.
"As pessoas se expõem muito no ambiente online, achando tudo muito natural", alerta André Carrareto, gerente de engenharia da Symantec. "É preciso refletir que algumas informações inseridas em sites de relacionamento podem ser usadas para prejudicar o próprio autor." Segundo ele, ainda estamos todos aprendendo a lidar com o ambiente de liberdade digital oferecido pelas redes sociais.
O grande desafio é saber onde termina o público e começa o privado. Pouquíssima gente, por exemplo, lê os enunciados da política de privacidade de um site. Ninguém tem paciência para isso. Clica-se o botão de "aceito", respira-se fundo e se começa a usar os serviços oferecidos. Este inocente hábito pode ser o início de uma tremenda dor de cabeça.
"A quebra de privacidade pode gerar problemas graves e levar à abertura de processos criminais", expõe o advogado Renato Opice Blum, especializado em crimes digitais. De acordo com ele, sempre que existe a "expectativa de privacidade" e ela é violada, é possível a vítima exigir reparação por perdas e danos. "Já existe jurisprudência sobre o assunto, mas ainda há 5% dos casos em que não existe nenhuma cobertura."
Quer um exemplo? Se um cracker invade o computador de alguém e bisbilhota todos os seus segredos, sem praticar outros atos, a legislação brasileira não tem como enquadrar sua ação como crime. No entanto, geralmente, o invasor não fica somente na "xeretagem". É quando começa a praticar atos puníveis pela lei.
No caso da jornalista Rosana Hermann, por exemplo, caso fosse descoberta a identidade do invasor, ele poderia responder a um processo criminal por falsa identidade. Além disso, uma causa cível de perdas e danos poderia ser aberta. É claro que Rosana se sente vitimada. A comunicadora reclama: "É um transtorno sem sentido, como se você recebesse uma multa por infração de trânsito sem nem ao menos ter um carro. Pagar uma pena sem ter feito nada de errado é muito injusto."
Seu caso teve um final "quase" feliz. A equipe do Twitter a ajudou a recuperar a maioria dos registros. Voltaram seus seguidores e seguidos. A felicidade só não foi completa porque o hacker apagou mais de 20 mil postagens. Elas foram parcialmente recuperadas. Mas o prejuízo foi perpetrado. "Perdi muito tempo da minha vida pesquisando no Google, pegando posts em memória cache, colocando os favoritos ou repostando-os", diz Rosana.
Depois do acontecido, a jornalista não mudou muito seu comportamento. "Apenas troquei de senha, tornando-a bastante complexa", revela. Rosana, apesar de comentar praticamente tudo que lhe acontece no dia a dia, não sente sua privacidade invadida. "Nunca conto intimidades", explica. "Não falo sobre minha família, só sobre mim."
É perfeitamente possível, por exemplo, saber onde Rosana está durante seu cotidiano. Ela já foi prejudicada por isso, quando viajou ao México e teve seu cartão clonado no hotel. Segundo ela, o fraudador gastou milhares de dólares sem sua autorização. "Acho a localização o menor dos problemas", opina. "A vida real é totalmente interligada com o mundo online, não há diferença em termos de segurança."
Rosana parece conformada com a perda da privacidade. "Na minha opinião, ela só vai existir num círculo de raio muito pequeno, numa parte da sua casa. Neste momento, por exemplo, se seu celular estiver ligado, sua operadora saberá onde você está. A privacidade acabou.""
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